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sexta-feira, abril 15

A Lucidez da Velhice VI




OP – O senhor tem ainda uma vantagem, na velhice, que é ir se desfazendo das máscaras. O senhor tem se desfeito de máscaras?

Boff – Nunca incorporei muita máscara porque fui muito transparente, verdadeiro e tive que pagar um preço: crítica, maledicência, juízo, punições. Mas é o fruto da liberdade. Nunca senti isso como castigo. Digo: “Fiz tantas que mereci, dentro desse sistema”. Acolho. E tento continuar minha fidelidade de base.

OP – E, ao se olhar no espelho dos 72 anos, quem Leonardo Boff vê?

Boff – (pausa). Vejo uma grande interrogação. Nunca sei quem sou. Só sei na medida em que vou realizando a vida. Aí, eu me dou conta: “Sou um mistério pra mim mesmo”. Não sei todos os demônios e anjos bons que estão dentro de mim. Só sei que preciso controlá-los e viver com fidelidade de base, ética, espiritual. Mas não é fácil. O ser humano é contraditório e esse equilíbrio tem que ser, continuamente, construído. Ele tem a natureza da rosa. Não dá para manter a beleza da rosa sem a sua fugacidade.

OP – Seu espírito e sua coragem já lhe permitem fazê-lo sábio?

Boff – Não me considero sábio, me considero uma pessoa que tem coragem de dizer as coisas como as pensa. E não sinto que estou provocando pessoas, mas as coisas têm que ser ditas porque assim as vejo.

OP – O senhor conclui que é velho, cristão, franciscano, teólogo e homem. Mas não se sente completo ainda. E o senhor também assina como “peregrinus” e “peccator”. O que o senhor ainda busca por onde anda e onde o senhor acha que falhou, nesse percurso de ser humano?

Boff – Estou aberto aos encontros que são fortuitos, não são planejados. Eles obedecem a lógica da física quântica, da incerteza. Mas acredito que há um elo de fundo, que leva a aproximar as pessoas. E, juntas, estabelecer um laço. Procuro incentivar esse lado. Que não seja ressentimento, disputa, concorrência. É a minha predisposição de base. Se alcanço, ou não, são as pessoas que têm que dizer e não eu.

OP – Após os anos de cristianismo, de ser franciscano, de favela, o senhor já compreende Deus?

Boff – Não. Quanto mais mergulho nessa realidade, mais percebo que Deus não é só mistério pra nós, Ele é mistério Nele mesmo. É uma energia última, poderosa, continuamente cria e, para Ele, também é surpresa. Mistério que nunca vai se acabar. E o ser humano também é mistério. Por mais que o defina, não consigo enquadrá-lo. Então, somos uma metáfora de Deus. E fico aberto a descobrir mil faces de Deus nas religiões, nas pessoas. Cada um é uma revelação da divindade, que merece ser ouvida, acolhida.

PERFIL
Leonardo Boff é sua assinatura literária e religiosa. O catarinense de Concórdia nasceu Genezio Darci Boff, em 14 de dezembro de 1938. Tornou-se autor de mais de 60 livros nas áreas de teologia, ecologia, espiritualidade, filosofia, antropologia e mística. Leonardo, do batismo quando frade, foi-lhe escolhido por ser nome de santo. Mas ele havia de ser gauche, na Igreja, ao atuar na Teologia da Libertação. O intelectual vive em Petrópolis e compartilha dias e noites com a educadora Marcia Maria Monteiro de Miranda. Para saber mais: www.leonardoboff.com.br.

Fonte: O Povo / Fortaleza / 2010 ANA MARY C. CAVALCANTE / REPORTER. Colaborou Luiz Henrique Campos.

http://opovo.uol.com.br/app/o-povo/paginas-azuis/2010/08/02/internapaginasazuis,2026243/a-lucidez-da-velhice.shtml


bjs,soninha

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