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quinta-feira, março 17

A Lucidez da Velhice IV



OP – E essa violência extremada que tem se manifestado nos indivíduos, onde está Deus nessa história?

Boff – Na medida em que o Brasil entra nas relações capitalistas, incentiva. É próprio da lógica do capitalismo a busca individual da felicidade, da casa, do carro. Petrópolis, onde vivo, cidade imperial, bonita, tem 102 favelas, escondidas atrás de cada morro. Esses são vítimas da televisão, da propaganda. Fazem o crime para roubar a Nike do outro. Entram na droga pra ganhar dinheiro e realizar os desejos que foram suscitados pelo marketing da nossa cultura. E há sempre uma violência que é inerente ao ser humano – se ele não se autocontrola. 

Às vezes, tem uma dimensão de vingança. Isso é o lado decadente do ser humano. Não temos uma equação perfeita que define o ser humano. Ele está em construção, buscando o equilíbrio. Pode ser o satã da Terra, que destrói nosso planeta, como pode ser o anjo bom, que cuida. Ele vive essa contradição. Quando a gente vê essa violência, tem que entender quem é o ser humano. Porque temos ódios dentro de nós. Temos violências. Mas a educação, a ética, a espiritualidade nos pede e conseguimos moderar. É um processo da civilização. Esses que não puderam ter acesso a essa civilização são mais expostos ao lado instintivo do ser humano.

OP – E a política pode dar de comer a quem tem essa fome de felicidade? Eleições se aproximam e se renovam promessas e esperanças…

Boff – A política é a busca comum do bem comum. Isso é o seu sentido ético. Agora, a política que existe é a busca do poder. E as promessas, 99% são enganosas. Fundamentalmente, a nossa política é conceder ao povo o direito de, a cada quatro anos, eleger o seu ditador. Uma vez eleito, ele faz o que quer. Não dialoga com as bases, os movimentos sociais. É a política no seu lado patológico. E isso temos que, pela cidadania, curar. Saber escolher os candidatos, submetê-los à crítica, ver que conexão têm com o povo, quais seus projetos reais.

OP – Qual outro passo importante para o País se distanciar ainda mais desse passado?

Boff – O Brasil tem que despertar da sua importância mundial para o equilíbrio do sistema Terra, que entrou em processo de caos devido ao aquecimento. Muitos já falam que o Brasil é a primeira potência grande dos trópicos, o G-0. Os outros são grandes porque têm dinheiro, indústria de ponta, armas nucleares: o G-2, o G-8, o G-20. Somos a potência ecológica. O Brasil pode ser a Roma dos trópicos, o velho sonho de Darcy Ribeiro. Uma Roma do direito, da dignidade, da cordialidade. Temos as bases ecológicas, geográficas para essa posição ímpar no mundo. E temos uma população que vem de 60 povos que aqui se amalgamaram, não criaram fundamentalismos, discriminações, mas fizeram uma síntese que poderá ser uma antecipação daquilo que vai ser a humanidade amanhã.

OP – Aos 72 anos, o senhor mantém sua fé – na vida, no homem, no que virá – inabalável?

Boff – Enquanto vivemos, agradecemos a vida. Porque a vida é a floração maior que o universo produziu, o dom maior que Deus nos entregou. Amo a vida, mas me dou conta de que estou no entardecer, descendo a montanha da vida. Mas que ela continuará. Então, quero sair do mundo abençoando a vida, e não a maldizendo. E me reconciliando com todas as coisas e agradecendo por ter passado.

Fonte: O Povo / Fortaleza / 2010 ANA MARY C. CAVALCANTE / REPORTER. Colaborou Luiz Henrique Campos.

http://opovo.uol.com.br/app/o-povo/paginas-azuis/2010/08/
/internapaginasazuis,2026243/a-lucidez-da-velhice.shtml


bjs,soninha



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