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segunda-feira, abril 25

Envelhecimento Saudável I

 Dr. Dráuzio Varela


Entrevista feita por Dr. Dráuzio Varela ao médico neurologista Wilson Jacob Filho.Dr. Wilson Jacob Filho é médico e diretor do Serviço de Geriatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

No início do século XX, na Europa desenvolvida, a expectativa de vida ao nascer andava ao redor dos 40 anos. Naquele tempo, homem ou mulher que atingissem essa idade provavelmente estariam se aproximando do final de suas vidas. Hoje, aos 40 anos, eles são considerados jovens.

A expectativa de vida praticamente dobrou nesses países no decorrer do século XX e isso trouxe consigo uma série de problemas socioeconômicos. São muitos os que chegam aos 70, 80 anos em condições físicas, às vezes, muito boas, mas aposentados desde os 50 anos, obrigando a Previdência Social a manter o pagamento dos benefícios por um período que não havia sido previsto. Morrer mais tarde criou também problemas sérios no relacionamento familiar, especialmente no que se refere a como lidar com um parente de idade mais avançada. Atualmente, difícil a família que não tenha alguém com 70, 80 anos em condições físicas nem sempre ideais. No entanto, não são poucas as pessoas que envelhecem e chegam aos 80 em plena atividade sem passar pelo processo de decrepitude física e intelectual que tanto nos assusta. 


Wilson Jacob Filho.


Drauzio– É possível existir um envelhecimento saudável?

Wilson – Não só é possível, como hoje é nosso objetivo encontrar os caminhos que levam ao envelhecimento saudável. Na verdade, ele é produto de várias ações que culminam com a expectativa de vida alongada, mas em condições de exercer todos os papéis que o indivíduo exercia ou gostaria de exercer dentro da sociedade. O envelhecimento saudável impõe não só boa condição física e mental, como também a inclusão social que lhe permita desempenhar tais funções.

Drauzio – O conceito de velhice variou com o tempo. Machado de Assis, por exemplo, em obras escritas há pouco mais de cem anos, referia-se ao velho de 50 anos, quando atualmente homens de 60 praticam “windsurf”. Existe um conceito médico que caracterize a velhice?


Wilson – O conceito etário, isto é, exclusivamente baseado na idade cronológica, é no mínimo temporário e vai se modificando com o passar do tempo, tanto que a Organização Mundial de Saúde reconhece não só o idoso, mas criou uma nova terminologia, “muito idoso” ou “very old”, para designar o indivíduo que chega aos 80 ou 85 anos de idade.

Drauzio – Segundo o critério da OMS, quem é idoso?

Wilson – Nos países desenvolvidos, é o indivíduo a partir dos 65 anos e, nos países em desenvolvimento, a partir dos 60 anos. No Brasil, portanto, é classificado como idoso quem completa 60 anos de vida.
Como se trata de um critério arbitrário, buscamos determinar uma condição funcional através da qual se consiga identificar as possibilidades de cada pessoa em cada faixa etária e entender se são normais ou estão agravadas por algum processo patológico. Delimitar essa condição é fundamental para que se possa afastar de vez o fantasma de que o idoso tem obrigatoriamente limitações funcionais exuberantes e que aos jovens seja imputada uma capacidade funcional absolutamente excepcional. Esses extremos próprios da visão popular são maléficos e prejudiciais para os dois segmentos etários.


Envelhecimento ativo

Drauzio – Há 50 anos, o paradigma da medicina era aconselhar as pessoas de mais idade a fazerem repouso. Era clássica a imagem do velho de pijama, sentado na poltrona da sala, sem fazer qualquer esforço, sem andar, sem ir sequer à padaria. Esse paradigma foi totalmente rechaçado pela medicina atual…

Wilson – Não só rechaçado como também contrariado. Hoje, entendemos que o envelhecimento ativo conduz ao envelhecimento saudável. Na verdade, essas expressões são quase sinônimas quando empregadas na literatura e nas recomendações cotidianas.



O envelhecimento ativo prioriza a atividade física não só após o indivíduo ter atingido faixa de idade mais avançada, mas durante todo o processo. Não se admite mais um período de sedentarismo em que a atividade física seja interrompida por volta dos 20, 25 anos, quando ele se torna um profissional atuante e só seja retomada mais tarde, como forma de tratamento porque já adoeceu.

Além disso, é importante manter atividade social, profissional, afetiva e amorosa em todos os sentidos. O idoso precisa compreender que só pertencerá à comunidade se agir como ela age. Caso contrário, será dela excluído naturalmente.


Benefícios da atividade física

Drauzio – Que tipo de benefício traz manter a atividade física no decorrer de toda a vida e especialmente depois dos 60 anos?

Wilson – A atividade física faz com que o organismo adapte-se a um patamar maior de exigência e de capacidade de resposta. Se olharmos o envelhecimento como um processo contínuo que vai da fase de desenvolvimento máximo até o fim da vida, veremos que ele se caracteriza pela limitação, pela perda progressiva da capacidade de adaptar-se, de responder a uma sobrecarga, seja do cotidiano – correr, subir uma escada, carregar um peso – seja uma sobrecarga artificial ou incomum, como uma doença ou condições climáticas excepcionais. Por isso, a gripe preocupa mais nos idosos do que nos jovens e uma onda de calor mata mais os velhos do que os moços.



Na medida em que a atividade física faz com que a pessoa, apesar da idade mais avançada, consiga preservar a capacidade de adaptação funcional, seu organismo terá respostas mais próximas das encontradas nos indivíduos de menos idade, isto é, preserva-se a capacidade de dar resposta à demanda funcional.

Exercício aeróbio + exercício de força




Drauzio – Vamos considerar três décadas distintas: dos 60 aos 70, dos 70 aos 80 e acima dos 80 anos. Qual o tipo de atividade física indicada para cada uma dessas faixas etárias?

Wilson – Sua pergunta mostra a evolução do conhecimento sobre esse período da vida. Houve época em que a atividade física ideal para o idoso era nenhuma. Ele deveria ficar em repouso para preservar-se dos eventuais riscos que os exercícios pudessem trazer.

Drauzio – E para morrer do coração mais depressa…




Wilson – Do coração, de tédio ou de outra forma de doença agravada pela imobilidade. Depois, imaginou-se que o indivíduo deveria fazer exercícios que preservassem sua capacidade cardiocirculatória. Nos anos 1970, vivemos a onda dos exercícios aeróbios como os grandes responsáveis pela prevenção de doenças cardiovasculares. Já os anos 1990 e o início do século XXI mostraram que são os exercícios de força que fazem a diferença quando se fala na capacidade funcional do idoso e na prevenção de boa parte das doenças comuns nessa faixa etária. Recentemente, numa entrevista, o próprio Kenneth Cooper, grande defensor do exercício aeróbio como única forma de atividade física saudável, disse que intercala exercícios aeróbios com exercícios de força (aqueles feitos contra uma resistência) para elevar não só massa, mas a qualidade muscular, ou seja, a capacidade de o indivíduo utilizar seus músculos quando necessário.

Escolha dos exercícios

Drauzio – Uma coisa é dizer – você precisa correr e levantar peso - para um homem de 60 anos, magro e em boas condições físicas e outra bem diferente fazer a mesma recomendação para quem tem 80 anos e está debilitado. Como você orienta seus pacientes?

Wilson – Ou para uma senhora que nunca praticou uma atividade física sistemática, foi dona de casa e exclusivamente se ateve às tarefas domésticas. A primeira coisa que faço é mostrar para essas pessoas que existem atividades, que não o uso de medicamentos, responsáveis por sua saúde. Segundo passo: uma vez que a pessoa esteja motivada para experimentar uma atividade física como forma de promoção de saúde, é preciso explicar-lhe os tipos de exercícios que promoverão o benefício almejado.
Queixa muito comum do indivíduo que envelhece é a restrição para realizar determinadas ações. Subir um degrau, o degrau do ônibus, por exemplo, é um desafio ergonômico tanto do ponto de vista de amplitude de movimentos quanto de força de impulsão. É fácil demonstrar, mesmo no consultório, que para realizar esse ato corriqueiro fazem falta força de contração muscular e amplitude articular. A pessoa que não consegue abotoar um botão nas costas, levantar os braços acima da cabeça, ou andar alguns metros, não tem simplesmente idade mais avançada. O fator idade está agravado pela falta de competência e de treinamento muscular.


Os exercícios físicos promovem benefícios em curto espaço de tempo. Algumas semanas depois de ter começado a praticá-los contra uma resistência de três quilos, por exemplo, o indivíduo percebe que já dobrou a carga. Isso lhe dá a convicção de que vale a pena continuar insistindo.

Drauzio – Na verdade, o músculo continua respondendo com hipertrofia independentemente da idade que a pessoa tenha.

Wilson – Continua respondendo a vida toda. Existem evidências científicas das mais variadas para mostrar que o músculo do idoso, quando submetido a treinamento organizado, responde de forma semelhante ao do jovem. Levando em conta o patamar geralmente mais baixo em que se iniciam os exercícios, tanto do ponto de vista da função medida com o desempenho, quanto do ponto de vista histológico, pode-se dizer que o músculo do mais velho responde da mesma maneira que o do jovem. Isso não quer dizer que o idoso, que treina, ficará jovem outra vez, mas que terá um acréscimo de força e competência muscular exatamente igual ao que o jovem sedentário teria começando e mantendo o treinamento durante o mesmo período. As curvas de ascensão são absolutamente idênticas e, em algumas semanas de treinamento, o idoso poderá adquirir condições musculares ou funcionais muito superiores ao do jovem que não participou do experimento.



fonte: site do Dr. Dráuzio Varela
bjs,soninha

Um comentário:

Bel Rech disse...

Muito interessante e bem informativa essa reportagem.
Paz e bem

Paz!