Paz e Amor!

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terça-feira, abril 5

A Lucidez da Velhice V



OP – A fé é mais acomodação ou inquietação?

Boff – A fé é uma aposta. E aposta é sempre inquieta e nunca está acomodada. Porque a gente não sabe se vai dar certo. A fé aposta que o fim é bom, que a vida vai triunfar, que as coisas não acabam na morte. Acredito que o desígnio e a palavra última não têm a morte, têm a vida. Essa é a grande mensagem das religiões, especialmente, do Cristianismo, que a vida é o grande mistério.

OP – Aos 70 anos, o senhor se declarou, oficialmente, velho. O senhor se deu conta do tempo que passou? O que o senhor celebra, especialmente, aos 70 anos?

Boff – Bom, primeiro, eu achava que ia morrer aos 40. Depois, aos 50 e, para cada época, fiz o balanço da vida. Cheguei aos 70 e disse: “Não faço balanço mais porque errei todos!” (risos). Mas, agora, me dou conta de que é a última fase. Que a vida me dá chance, ainda, para eu crescer, madurar, fazer sínteses. Quero fazer a vida algo criativo. Usar minha experiência e acumulação de saber (passei a vida estudando), que seja útil para a humanidade. Quando me perguntam: “O que você faz na vida?”, “Sou um agitador cultural. Agito”. Não quero trazer consolo a ninguém, quero trazer angústia. A angústia faz pensar, conversar, ler. E o mundo nos obriga essa angústia. Mas é uma angústia criativa, não é uma angústia que um psicólogo cura. É existencial. E a função do intelectual é manter a humanidade aberta, feliz com aquilo que conquistou, mas criativa para conquistar mais para todo mundo. Diria aquilo que Oscar Niemeyer respondeu: “Você gostaria de ser imortal e eterno?”. “Se é pra todo mundo, sim. Se for só pra mim, não”. Essa é a grande mensagem, de universalização do bem e não a privatização.

OP – O senhor já indicou “buscar o impossível para atingir o possível”. Ao longo do seu percurso, o senhor foi mais águia, ou mais galinha?

Boff – Sempre tive desejo de águia. Desde pequeninho, conflitava com as pessoas, não aceitava as coisas como eram e queria sempre crescer. O campo daquilo que não conhecemos é infinito. E aquilo que conhecemos é mínimo. Quero me confrontar com esse desafio do grande, do infinito. E mantenho esse mesmo entusiasmo, apesar da idade.

OP – E que retoques o senhor tem dado na sua estátua? O senhor diz que, na velhice, temos a oportunidade do nascer novamente e vamos dando nossos próprios retoques…

Boff – A gente realiza o arquétipo de base, aquela energia de fundo que quer se manifestar. Ora de forma melhor, ora de forma pior. E posso dizer que ela nunca foi completa em mim. E talvez só se realize na eternidade, com a mão de Deus. Eu modificaria talvez muitas coisas. Seria mais indignado. Houve uma época em que eu era mais monge, voltado pra dentro, não sentia tanto o drama do mundo. E percebi uma certa alienação. O convento tenta realizar o mundo reconciliado, proteger contra as tentações do mundo e da carne. Mas devemos estar dentro da realidade. Não ficar no porto tranquilo, ir para o mar alto. E não suplicar a Deus, “livre-me das ondas”, mas “me dê forças para enfrentar as ondas”. Essa perspectiva, nunca perdi.


Fonte: O Povo / Fortaleza / 2010 ANA MARY C. CAVALCANTE / REPORTER. Colaborou Luiz Henrique Campos.http://opovo.uol.com.br/app/o-povo/paginas-azuis/2010/08/02/internapaginasazuis,2026243/a-lucidez-da-velhice.shtml


bjs,soninha


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