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segunda-feira, fevereiro 14

A Lucidez da Velhice I



O POVO – É possível conciliar as duas dimensões de felicidade: a individual – o que seria, particularmente, importante – e a coletiva?

Leonardo Boff – Creio que a felicidade resulta de relações que faço boas para comigo mesmo e boas para com os outros, a natureza, o todo. E para com Deus, a realidade mais suprema. Então, a felicidade não pode ser alcançada diretamente, é fruto de coisas que acontecem antes. E o ser humano é um nó de relações. Como diz Carlos Drummond: “Estou diluído dentro da natureza, floresço com os ipês”. Essa percepção dá um sentido mais profundo à felicidade. É impossível alguém ser feliz sabendo que seus irmãos estão morrendo de fome e sede, outros estão sendo vítimas dos vendavais que destroem. Mesmo assim, pode criar um núcleo profundo de serenidade e de paz quando integra o negativo pessoal e o negativo das coisas e faz uma síntese cujo efeito é uma felicidade possível aos humanos, em um mundo que, em grande parte, é inumano.

OP – Existe relação entre felicidade, espiritualidade e autoajuda?

Boff – A autoajuda é uma grande indústria que trabalha com falsas promessas e tem como pressuposto a vulnerabilidade e a fragilidade humana. Todo ser humano quer ser feliz. E a autoajuda oferece uma fórmula rápida e fácil. Isso é alienação. A felicidade vem de dentro e é uma conquista que o ser humano realiza partindo da condição humana. Somos seres que têm a dimensão de luz e de sombra. Somos diabólicos, que dividem, odeiam e somos seres simbólicos, que unem, amam, são solidários. Essa é a condição humana. Não é um defeito, é a nossa marca. A felicidade vem do equilíbrio dessas duas dimensões, na medida em que faço uma opção pela dimensão luminosa e não deixo que a dimensão tenebrosa tenha a hegemonia da minha vida. Se parto dessa condição humana, diminuo as expectativas, a felicidade é mais alcançável, mais serena. Não significa que não tenhamos momentos especiais de felicidade. É a dimensão vertical. Um encontro com a pessoa amada, o irmão que estava no exílio volta… Aquele momento é supremo. Agora, tem aquele momento de estar, serenamente, feliz, que é o cotidiano da vida. O fenômeno do casamento é uma bela figura. Quando a pessoa se enamora, sente uma enorme felicidade. Mas é fugaz. Casa, vem o dia a dia, se descobrem nos seus limites, um tem que tolerar o outro. Ele está feliz na medida em que consegue fazer uma síntese e conviver, apesar e com as diferenças. “Hoje vamos jantar fora”… Romper aquele cotidiano que ameaça a felicidade. E ser criativo para manter aquele momento que é um pequeno êxtase, um pequeno encantamento. A felicidade vive dessas dimensões. E isso é sabedoria da vida, coisa que o mercado não dá. É uma conquista do coração.

OP – Mais próximo à espiritualidade…

Boff – A espiritualidade tem que ser bem entendida. Não é sinônimo de religião. É uma dimensão do profundo humano, onde o ser humano coloca as questões de base: o que eu faço nesse mundo, de onde venho, para onde vou, o que posso esperar depois dessa vida? A felicidade implica que a gente não exclua do nosso horizonte a doença e a morte. A morte nessa compreensão de que é o momento mágico, alquímico de transfiguração. Somos chamados não para terminar, mas para nos modificar na morte, para que a vida dê um salto. A morte é uma invenção da vida para ela poder passar para um outro nível e continuar vida. A felicidade implica ter essa serenidade de encarar a morte como pertencendo à vida. A vida é mortal. Vamos morrendo, em prestação. Simultaneamente, vamos nascendo, lentamente, para horizontes mais vastos, até o grande horizonte. As duas coisas coexistem. O ser humano, quando interioriza essas questões, descobre a sua dimensão espiritual. E isso temos que resgatar, contra a mercantilização de todas as coisas. A amizade, o amor, o perdão não têm preço, têm imenso valor. A espiritualidade vive desses valores. E que dão sentido à existência humana. Para além da própria vida e da morte.


Fonte: O Povo / Fortaleza / 2010 ANA MARY C. CAVALCANTE / REPORTER. Colaborou Luiz Henrique Campos.

http://opovo.uol.com.br/app/o-povo/paginas-azuis/2010/08/02/internapaginasazuis,2026243/a-lucidez-da-velhice.shtml


bjs,soninha



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