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sexta-feira, dezembro 4

Longevidade: qual é o segredo?


Em reportagem especial da TV Cultura, o colunista do Portal Terceira Idade, Kurt Lenhard, 92, explica como ele mantém uma vida ativa, feliz e saudável nesta fase da vida

O envelhecimento é um fato novo para a humanidade. Até meados do século 20, a expectativa média de vida girava em torno de 60 anos. Com o avanço da medicina, melhor alimentação e o saneamento básico, as pessoas passaram a viver mais e, hoje, viver até os 70, 80 e até mais de 90 anos está se tornando cada vez mais comum. Mas nem todos alcançam uma idade avançada com boas condições físicas e mentais. 

Para mostrar um exemplo de longevidade, com uma vida ativa, feliz e saudável, o Programa Repórter Eco, da TV Cultura, entrevistou Kurt Lenhard, 92 anos, colunista do Portal Terceira Idade. Na reportagem, Kurt ensina alguns dos segredos de sua longevidade. 

Ânimo de Vida

De origem alemã, Kurt chegou ao Brasil ainda adolescente, em 1939, conseguindo escapar das agruras da 2ª Guerra. Administrador e consultor, foi um dos criadores do Fórum da Educação e autor do livro “A Corrida pela Paz”, publicado em 1986. 

Há quase 20 anos, Kurt ultrapassou a linha da chamada expectativa de vida, e ainda mantém o ritmo, esbanjando lucidez e raciocínio rápido. 

Perguntado sobre que conselho daria para quem está nesta faixa etária e não tem tanto ânimo de vida, Kurt recomenda “se mexer, andar, fazer exercícios, e manter-se atualizado, seja através de jornal ou pela internet e, o mais importante, preocupar-se com aqueles que têm uma vida mais difícil do que a gente”. 

“Não me imagino viver sem amor”

Para ele, o final de semana é sagrado. Vai sempre para a casa de sua namorada, 22 anos mais jovem, a bibliotecária Miriam Menossi (foto), 70. “Eu não posso me imaginar e nem consigo viver sem amor. Eu sou um sujeito emocional”, enfatiza. 

Kurt declara que não tem medo de morrer. “Enquanto a vida durar, vamos aproveitar!”, finaliza. Assista à entrevista completa clicando no vídeo acima.

sábado, maio 16

"Sexo na terceira idade existe, sim!"


Histórias de casais gays que superam o preconceito estão se tornando comuns em novelas. Só que, quando se trata de um romance em que as protagonistas são Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg duas (maravilhosas) atrizes de 85 anos, dá-lhe polêmica! Em Babilônia, elas vivem Teresa e Estela, que mantêm um relacionamento sólido há quase quatro décadas. Embora o  beijo trocado por elas no primeiro capítulo tenha sido discreto, muita gente achou a cena absurda. "Quem pensa que sexo na terceira idade não existe são os jovens, que ainda não chegaram lá", afirma Fernanada Montenegro que bateu um papo com a gente sobre amor, preconceito e envelhecimento.

Você acha que existe preconceito também em relação ao sexo na terceira idade?

Os que acham que não existe sexo na velhice são jovens, mas, quando chegarem a essa idade, irão ver que é diferente. Quem pensa assim vai ver quando envelhecer que esse pensamento se resume a uma palavra só: preconceito. E de preconceito já estamos cheios. Está na hora de mais uma vez lutarmos contra isso de fato.

Ainda sobre preconceito, quais temas que você gostaria de ver abordados em outras novelas?

A união de velhos de terceira, quarta e quinta idade. Outro exemplo que seria bom abordar é a vida dos leprosos. Existem milhões de zonas escuras e fragilidades no ser humano quando se trata de uma doença. Havia um tempo em que a maior desgraça que poderia acontecer a uma pessoa era a tuberculose! Isso era um pânico, como é a AIDS hoje em dia. É bom falar disso.


TODO SER HUMANO TEM O DIREITO DE SER O QUE QUER 

Muitas atrizes acham que você é um exemplo de beleza na terceira idade justamente por ter a aparência muito natural. Como se cuida?

Eu costumo falar que tomo banho duas vezes por dia [risos], procuro sempre fazer meus exames semestrais e vou ao dentista. Eu já comi muito, mas agora tomo mais cuidado, não fico me entupindo de comida. Tenho uma grande terapia ocupacional, que é a minha profissão. Não fico em casa sentada esperando nada acontecer.

E você é a favor das plásticas ou já fez alguma?

Há 40 anos, eu já tinha estas bolsas [apontando para os olhos], e aí eu fiz plástica para tirá-las, mas elas voltaram, ainda piores. Pensei: então, agora vão ficar aí mesmo [risos].

Pratica alguma atividade física?

Eu sou de organismo magro. Deus me deu esse negócio. Eu trabalho muito e sou ágil. Lógico que uma vez ou outra o corpo apresenta algum probleminha, mas não é só velho que tem isso. Tem até crianças que também nascem com problemas de saúde!

É a primeira vez que você representa uma homossexual?

Não. Eu fiz, no teatro, As Lágrimas Amargas de Petra von Kant, no começo da década de 1980, por vários anos. Na televisão, sim, é a primeira vez. É um prazer fazer esse papel com uma companheira maravilhosa de profissão e de geração como a Nathalia.

Chegou a escutar algum tipo de comentário preconceituoso sobre essa personagem?

Podem até fazer alguns comentários particulares, mas a sociedade já caminhou bastante nesse sentido. Não como nós queremos que caminhe, mas já enxergamos uma luz no fim do túnel. O trabalho não é para espantar ou ofender ninguém; estamos apenas mostrando duas mulheres que têm uma vida em comum há quase 40 anos. Elas têm uma vida normal na sua beleza, nas suas necessidades sexuais particulares.

Já conviveu com um casal assim na vida real?

Eu sei de casos como esse que a sociedade aceita, sim. Já vi mulheres que têm filhos juntas e vão a festinhas de aniversário, as mães vão, os coleguinhas vão, tudo normal. A novela faz isso de uma forma mais popular; vai ser bom para abrir a cabeça de quem ainda resiste. Acho que essa é a caminhada do ser humano: ter direito de ser o que quer e ter a sua vida plenamente realizada. Agora, lógico que o preconceito ainda existe. Muita gente banca a moderninha publicamente, mas pensa: não traga isso para dentro de casa.

Como você define a Teresa?

Ela é uma mulher muito consciente, uma advogada que sabe contestar e tem coragem de sempre defender o que acha justo para a sociedade. Isso tudo é interessante porque o Gilberto Braga não faz somente um blá-blá-blá seco e direto na novela. A Teresa é uma pessoa muito humana, é uma mulher quente, que vê a vida pelo sentimento.


quinta-feira, setembro 19

Memória nos Idosos

A população de homens e mulheres acima dos 60 anos aumentou muito nas últimas décadas. Alguns ultrapassam os 80, 90 anos em condições clínicas satisfatórias, mas são raros os que não apresentam dificuldades com a memória. Em geral, as recordações do passado permanecem vivas, recheadas de pormenores, mas a memória falha, quando querem lembrar de acontecimentos recentes. Isso desconcerta um pouco os familiares. “Meu avô conta, com minúcias, histórias que ocorreram quando tinha cinco anos e morava no interior e se esquece do número do telefone de casa ou o que comeu no almoço”, fala o neto preocupado. 
A pergunta que se impõe é, se a partir dos 40, 50 anos a capacidade de armazenar informações começa a sofrer um processo lento e gradativo de deterioração, ou se, no mundo moderno, a quantidade absurda de informações com que somos bombardeados dificulte sua assimilação. De qualquer modo, a perda da memória não pode ser considerada como um fato inexorável associado ao envelhecimento. Quanto mais precoce forem diagnóstico e a prescrição do tratamento, mais fácil será deter a evolução da perda da memória.
*Síndrome Demencial*
Drauzio – A partir dos 40, 50 anos, perdemos um pouco a capacidade de reter os fatos na memória ou, hoje, a quantidade de informações é tão grande que é impossível lembrar todas elas? 
Alberto Macedo Soares –Essa é uma dúvida a ser esclarecida. Não se pode negar que, hoje, além do acúmulo enorme de informações, o grau de preocupação é tanto que o trabalho não se encerra com o término do expediente. Muitas vezes, a pessoa de 40, 50 anos entra em casa, liga o computador e continua em atividade, comprometendo as horas que deveriam ser reservadas para descansar e dormir. Essas situações são responsáveis por aumento da carga de estresse e pelo déficit de atenção, que podem provocar prejuízo da memória, principalmente da memória recente.

No entanto, não podemos interpretar a perda da memória como um fato inexorável associado ao envelhecimento. Existem pessoas com 85, 90 anos com memória absolutamente íntegra, enquanto outras apresentam alterações muito mais jovens. Cabe-nos, então, investigar o que antigamente se chamava de esquecimento benigno e distingui-lo do esquecimento que é maligno, pois o déficit de memória associado à idade, que não é doença, é diferente da perda de memória que caracteriza a síndrome demencial, uma doença que prejudica o indivíduo a tal ponto que ele não consegue mais manter as funções social, pessoal e profissional.

Drauzio – Como se traça essa linha divisória? 
Alberto Macedo Soares – Essa é a grande dificuldade. O envelhecimento pode, sim, trazer um pequeno déficit de atenção, de concentração, de armazenamento de dados atuais, mas em absoluto isso compromete as funções sociais do indivíduo. A partir do momento, porém, que ele passa a cometer deslizes no trabalho, não se lembra do nome do neto que vê todos os domingos, nem de tarefas corriqueiras como pagar uma conta, o esquecimento deixa de estar associado à idade e passa a ser encarado como sintoma de síndrome demencial. Embora esse termo pareça pesado demais e pejorativo no Brasil, esse é o nome que se usa em todo o mundo.

Drauzio – Parece certo que a perda de memória associada à idade frequentemente se refere à memória precoce. As memórias tardias ficam bem arquivadas e custam a desaparecer.

Alberto Macedo Soares – Tanto no prejuízo da memória associado à idade quanto na síndrome demencial, o déficit manifesta-se inicialmente para os fatos recentes. As pessoas vão se esquecendo dos recados, do número do telefone, do nome do vizinho. Quando o processo se agrava é um sinal de alerta. 
Autores apontam que prejuízo da memória atribuído à idade, de 20% a 30% dos casos, pode ser manifestação inicial de uma doença mais séria. Por isso, a atenção deve ser redobrada e o paciente submetido a exames para identificar se realmente a perda da memória está associada à idade ou é o começo de uma doença que vai degenerar-se na síndrome demencial e exige tratamento precoce.
 *Diagnóstico*
Drauzio – O que a família deve observar para distinguir um simples esquecimento ou distração de um quadro mais sério de perda da memória? 
Alberto Macedo Soares – O problema deve chamar mais atenção quando os esquecimentos ficam frequentes. É óbvio que, se o dia foi marcado por acontecimentos tristes e a pessoa esqueceu de pagar uma conta, isso é normal e não deve ser levado em conta. Na correria do dia a dia, quantas vezes temos de voltar porque esquecemos a chave do carro ou um papel importante sobre a mesa. São esquecimentos que não prejudicam. Agora, quando o paciente sabia de cor o telefone da família inteira e dos amigos, mas não se lembra mais do número do telefone da própria casa ou do escritório, é um sinal de alerta e a família deve encaminhá-lo para diagnóstico e tratamento. Nós, os geriatras, temos pressa em investigar esses casos a fim de evitar complicações futuras.

Drauzio – Como é feita essa investigação?

Alberto Macedo Soares – Primeiro, procura-se quantificar o tipo de perdas (memórias recentes, tardias, etc.). Depois, testamos outras funções, como a capacidade de interpretar provérbios, por exemplo. Alguns autores já propuseram instrumentos que permitem pontuar o desempenho do indivíduo de acordo com seu nível intelectual e graduação profissional para dizer se ele é portador da síndrome demencial ou não. Muitas vezes, quando o paciente procura o médico, já é portador de síndrome demencial grave, tão grave que não se lembra por que está ali. Para contornar essa dificuldade, somos obrigados a valer-nos de subterfúgios. A filha fala com a secretária, telefona, entrega um bilhetinho para o médico, ou pede para conversar com ele antes da consulta. “Ele sempre foi muito bravo, muito austero, e não admite que esteja ficando esquecido”, começa assim a maioria das conversas. Saber desses dados é essencial para o diagnóstico correto, pois certamente existe um problema grave que deve ser investigado de forma adequada.

*Doença de Alzheimer*
Drauzio – Em que idade as síndromes demenciais geralmente se manifestam?

Alberto Macedo Soares – Vamos considerar a doença de Alzheimer, que é uma das mais devastadoras da memória. Menos de 5% da população com 50 anos manifestam essa doença, mas aos 90 anos, 50% da população tem Alzheimer.

Drauzio – Quais as principais características da doença de Alzheimer?

Alberto Macedo Soares – A doença de Alzheimer é causada pela diminuição do número de neurônios dentro do cérebro e pelo depósito de uma proteína chamada beta-amiloide. Isso faz com que o cérebro vá perdendo a função intelectual e o paciente começa esquecendo recadinhos, números de telefone, até que esquece o nome do neto ou a data de pagar as contas. Quando o comprometimento é mais grave, ele se esquece até de comer e de vestir-se. Alzheimer é uma doença degenerativa, de evolução lenta, insidiosa e progressiva. Muitas pessoas recebem equivocadamente esse diagnóstico para justificar a síndrome demencial. Na verdade, para fazer o diagnóstico da doença de Alzheimer com segurança, tínhamos que pedir uma biópsia do cérebro. Como não se pede biopsia cerebral para pessoas com déficit de memória, temos de encontrar uma forma de excluir as outras causas, pois existem mais de 30 ou 40 doenças que podem levar ao comprometimento da memória. Embora a doença de Alzheimer seja a mais frequente, seu diagnóstico deve ser feito por exclusão, isto é, o médico conclui que provavelmente o paciente é portador da doença de Alzheimer, porque nenhuma das outras causas foi determinada para justificar o quadro. 

*Possíveis Causas*
Drauzio – Na linguagem coloquial, as pessoas se referem aos mais velhos que se esquecem das coisas dizendo que estão ficando esclerosados. A medicina não reconhece essa classificação. Qual seria o termo adequado para definir tais situações?

Alberto Macedo Soares – Esclerose é uma palavra que vem do grego e significa enrijecimento. Há 30 ou 40 anos, acreditava-se que, com a idade, o indivíduo ficava esquecido porque os vasos cerebrais enrijeciam e ele se tornava portador de esclerose vascular ou de arteriosclerose. Daí o termo esclerosado que foi adotado equivocadamente para definir a pessoa com lapsos de memória. Sabemos que a arteriosclerose só é responsável por 20% dos esquecimentos. Por isso, o uso do termo é inadequado. O certo seria chamar de síndrome demencial e investigar suas possíveis causas.

Drauzio – A palavra demencial assusta muito os familiares, que a associam à ideia de loucura.

Alberto Macedo Soares – Sem dúvida, isso acontece, especialmente no Brasil, onde a palavra é usada de forma agressiva e pejorativa. Chamamos de demente o camarada que passa na nossa frente para entrar no elevador: “Esse demente acha que está com mais pressa do que eu”, e de demente o motorista que cometeu uma imprudência no trânsito. No entanto, ao usar a expressão síndrome demencial, eu me valho da conotação e da agressividade contida na palavra demencial para causar impacto naqueles que ainda acham que esquecer é um fenômeno normal do envelhecimento. Se o idoso anda esquecido, pode ser portador de uma doença que merece ser investigada.

 *Estímulo Intelectual*
Drauzio – Trabalhos demonstram que, quanto mais intelectualizadas as pessoas forem, quando mais atividades físicas fizerem, quanto mais rico for o universo em que vivem, menores serão os déficits de memória e mais lenta a evolução dos casos.

Alberto Macedo Soares – Realmente, há trabalhos mostrando que, teoricamente, quanto maior a atividade intelectual, mais o indivíduo estará protegido contra o acometimento das doenças degenerativas. Há dois ou três anos, estive com Alistair Burns, um pesquisador de memória da Inglaterra. Quando lhe perguntei qual sua recomendação para os interessados em proteger a memória, respondeu: “Digo para aprenderem uma nova língua”.

De fato, ao aprenderem uma nova língua, as pessoas estarão exercitando várias formas de linguagem e várias formas de memória. O processo de aprendizagem envolve necessidade de concentração e apelo constante à memória recente e à memória tardia. Por isso, quando alguém me diz que anda preocupado com a memória porque a mãe teve Alzheimer, pergunto-lhe: “Que língua você fala? Inglês? Então vá aprender francês”. Esse é um jeito de estimular várias funções da linguagem que contribuem para a preservação da memória.

 *Tratamento*

Drauzio – Quando a pessoa vai esquentar o café e esquece o fogo aceso, entra no banho e não se lembra onde estão a toalha e o sabonete, é sinal de que a deficiência da memória pode ter-se estabelecido. O que é possível fazer para minorar as conseqüências desse problema?

Alberto Macedo Soares – Esse é um momento importante para começar a investigação. Entre as síndromes demenciais, ou seja, entre os déficits cognitivos – para usar uma nomenclatura mais suave para designar uma doença tão devastadora -, existem as potencialmente reversíveis e as irreversíveis.

Depressão, tumores benignos como o meningioma, ou mesmo um hematoma (o idoso caiu, bateu a cabeça e, depois de um tempo ficou esquisito) são causas de esquecimento potencialmente reversível. Mas existem outras: o hipotireoidismo, que é muito freqüente nos idosos, carência de vitamina B12, neurolues ou neurossífilis e a hidrocefalia de pressão intermitente, uma degeneração cujos sintomas são esquecimento, andar descoordenado, como o de um bêbado, e perda do controle urinário. Por que essas doenças são classificadas como causadoras de esquecimento potencialmente reversível? Porque o processo pode ser revertido se o paciente com hipotireoidismo, por exemplo, tomar hormônio tireoideano, logo que começou a apresentar alterações da memória. Agora, se o problema já estiver estabelecido há mais tempo, as chances de reverter o processo serão infinitamente menores.

Por isso, sempre se reitera a informação de que as causas do esquecimento devem ser investigadas assim que a pessoa começou a manifestar esse sintoma.

Drauzio – Quando os quadros demenciais são potencialmente reversíveis, trata-se a doença de base e a pessoa volta ao normal. Mas, quando estamos diante de um quadro de Alzheimer ou de outras demências irreversíveis, o que se pode fazer para retardar a evolução da doença?

Alberto Macedo Soares – Muito se pode fazer. Infelizmente, a maioria dos pacientes é portadora de demências irreversíveis. No Brasil, as mais freqüentes são a doença de Alzheimer, os pequenos derrames cerebrais causados por micro-infartos, ou uma associação dessas duas enfermidades. Geralmente, os micro-infartos cerebrais são causados por obstruções ou entupimentos, pressão alta, níveis elevados de colesterol, fumo e diabetes, fatores que podem ser identificados e controlados na tentativa de impedir que continuem provocando pequenos acidentes cerebrais.

Todos sabemos que a doença de Alzheimer não tem cura. No entanto, recentemente se descobriu que pacientes com Alzheimer apresentam déficit de um dos maiores mediadores da memória, a acetilcolina e tentou-se administrar acetilcolina nesses casos, mas os efeitos colaterais foram terríveis. A estratégia, então, foi procurar diminuir a atividade destruidora da acetilcolina inibindo a ação da enzima que a destrói e, desse modo, evitar que a evolução dessa doença seja tão dramática.

Drauzio – Esse medicamento está disponível no mercado?

Alberto Macedo Soares – Não só está disponível, como a rede pública de saúde o fornece gratuitamente. São remédios tão caros que eu costumava dizer que Alzheimer era doença de rico porque só os ricos conseguiam comprá-lo. Felizmente, o Ministério da Saúde desenvolveu centros de referência à saúde do idoso que distribuem o medicamento de graça. Em Santos, coordenamos um desses centros e fornecemos o remédio para os idosos das nove cidades da Baixada Santista.
Dr. Alberto de Macedo Soares é médico geriatra. Trabalha no serviço de geriatria do Hospital das Clínicas de São Paulo e é professor de Geriatria da Faculdade de Medicina de Santos.

segunda-feira, abril 25

Envelhecimento Saudável I

 Dr. Dráuzio Varela


Entrevista feita por Dr. Dráuzio Varela ao médico neurologista Wilson Jacob Filho.Dr. Wilson Jacob Filho é médico e diretor do Serviço de Geriatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

No início do século XX, na Europa desenvolvida, a expectativa de vida ao nascer andava ao redor dos 40 anos. Naquele tempo, homem ou mulher que atingissem essa idade provavelmente estariam se aproximando do final de suas vidas. Hoje, aos 40 anos, eles são considerados jovens.

A expectativa de vida praticamente dobrou nesses países no decorrer do século XX e isso trouxe consigo uma série de problemas socioeconômicos. São muitos os que chegam aos 70, 80 anos em condições físicas, às vezes, muito boas, mas aposentados desde os 50 anos, obrigando a Previdência Social a manter o pagamento dos benefícios por um período que não havia sido previsto. Morrer mais tarde criou também problemas sérios no relacionamento familiar, especialmente no que se refere a como lidar com um parente de idade mais avançada. Atualmente, difícil a família que não tenha alguém com 70, 80 anos em condições físicas nem sempre ideais. No entanto, não são poucas as pessoas que envelhecem e chegam aos 80 em plena atividade sem passar pelo processo de decrepitude física e intelectual que tanto nos assusta. 


Wilson Jacob Filho.


Drauzio– É possível existir um envelhecimento saudável?

Wilson – Não só é possível, como hoje é nosso objetivo encontrar os caminhos que levam ao envelhecimento saudável. Na verdade, ele é produto de várias ações que culminam com a expectativa de vida alongada, mas em condições de exercer todos os papéis que o indivíduo exercia ou gostaria de exercer dentro da sociedade. O envelhecimento saudável impõe não só boa condição física e mental, como também a inclusão social que lhe permita desempenhar tais funções.

Drauzio – O conceito de velhice variou com o tempo. Machado de Assis, por exemplo, em obras escritas há pouco mais de cem anos, referia-se ao velho de 50 anos, quando atualmente homens de 60 praticam “windsurf”. Existe um conceito médico que caracterize a velhice?


Wilson – O conceito etário, isto é, exclusivamente baseado na idade cronológica, é no mínimo temporário e vai se modificando com o passar do tempo, tanto que a Organização Mundial de Saúde reconhece não só o idoso, mas criou uma nova terminologia, “muito idoso” ou “very old”, para designar o indivíduo que chega aos 80 ou 85 anos de idade.

Drauzio – Segundo o critério da OMS, quem é idoso?

Wilson – Nos países desenvolvidos, é o indivíduo a partir dos 65 anos e, nos países em desenvolvimento, a partir dos 60 anos. No Brasil, portanto, é classificado como idoso quem completa 60 anos de vida.
Como se trata de um critério arbitrário, buscamos determinar uma condição funcional através da qual se consiga identificar as possibilidades de cada pessoa em cada faixa etária e entender se são normais ou estão agravadas por algum processo patológico. Delimitar essa condição é fundamental para que se possa afastar de vez o fantasma de que o idoso tem obrigatoriamente limitações funcionais exuberantes e que aos jovens seja imputada uma capacidade funcional absolutamente excepcional. Esses extremos próprios da visão popular são maléficos e prejudiciais para os dois segmentos etários.


Envelhecimento ativo

Drauzio – Há 50 anos, o paradigma da medicina era aconselhar as pessoas de mais idade a fazerem repouso. Era clássica a imagem do velho de pijama, sentado na poltrona da sala, sem fazer qualquer esforço, sem andar, sem ir sequer à padaria. Esse paradigma foi totalmente rechaçado pela medicina atual…

Wilson – Não só rechaçado como também contrariado. Hoje, entendemos que o envelhecimento ativo conduz ao envelhecimento saudável. Na verdade, essas expressões são quase sinônimas quando empregadas na literatura e nas recomendações cotidianas.



O envelhecimento ativo prioriza a atividade física não só após o indivíduo ter atingido faixa de idade mais avançada, mas durante todo o processo. Não se admite mais um período de sedentarismo em que a atividade física seja interrompida por volta dos 20, 25 anos, quando ele se torna um profissional atuante e só seja retomada mais tarde, como forma de tratamento porque já adoeceu.

Além disso, é importante manter atividade social, profissional, afetiva e amorosa em todos os sentidos. O idoso precisa compreender que só pertencerá à comunidade se agir como ela age. Caso contrário, será dela excluído naturalmente.


Benefícios da atividade física

Drauzio – Que tipo de benefício traz manter a atividade física no decorrer de toda a vida e especialmente depois dos 60 anos?

Wilson – A atividade física faz com que o organismo adapte-se a um patamar maior de exigência e de capacidade de resposta. Se olharmos o envelhecimento como um processo contínuo que vai da fase de desenvolvimento máximo até o fim da vida, veremos que ele se caracteriza pela limitação, pela perda progressiva da capacidade de adaptar-se, de responder a uma sobrecarga, seja do cotidiano – correr, subir uma escada, carregar um peso – seja uma sobrecarga artificial ou incomum, como uma doença ou condições climáticas excepcionais. Por isso, a gripe preocupa mais nos idosos do que nos jovens e uma onda de calor mata mais os velhos do que os moços.



Na medida em que a atividade física faz com que a pessoa, apesar da idade mais avançada, consiga preservar a capacidade de adaptação funcional, seu organismo terá respostas mais próximas das encontradas nos indivíduos de menos idade, isto é, preserva-se a capacidade de dar resposta à demanda funcional.

Exercício aeróbio + exercício de força




Drauzio – Vamos considerar três décadas distintas: dos 60 aos 70, dos 70 aos 80 e acima dos 80 anos. Qual o tipo de atividade física indicada para cada uma dessas faixas etárias?

Wilson – Sua pergunta mostra a evolução do conhecimento sobre esse período da vida. Houve época em que a atividade física ideal para o idoso era nenhuma. Ele deveria ficar em repouso para preservar-se dos eventuais riscos que os exercícios pudessem trazer.

Drauzio – E para morrer do coração mais depressa…




Wilson – Do coração, de tédio ou de outra forma de doença agravada pela imobilidade. Depois, imaginou-se que o indivíduo deveria fazer exercícios que preservassem sua capacidade cardiocirculatória. Nos anos 1970, vivemos a onda dos exercícios aeróbios como os grandes responsáveis pela prevenção de doenças cardiovasculares. Já os anos 1990 e o início do século XXI mostraram que são os exercícios de força que fazem a diferença quando se fala na capacidade funcional do idoso e na prevenção de boa parte das doenças comuns nessa faixa etária. Recentemente, numa entrevista, o próprio Kenneth Cooper, grande defensor do exercício aeróbio como única forma de atividade física saudável, disse que intercala exercícios aeróbios com exercícios de força (aqueles feitos contra uma resistência) para elevar não só massa, mas a qualidade muscular, ou seja, a capacidade de o indivíduo utilizar seus músculos quando necessário.

Escolha dos exercícios

Drauzio – Uma coisa é dizer – você precisa correr e levantar peso - para um homem de 60 anos, magro e em boas condições físicas e outra bem diferente fazer a mesma recomendação para quem tem 80 anos e está debilitado. Como você orienta seus pacientes?

Wilson – Ou para uma senhora que nunca praticou uma atividade física sistemática, foi dona de casa e exclusivamente se ateve às tarefas domésticas. A primeira coisa que faço é mostrar para essas pessoas que existem atividades, que não o uso de medicamentos, responsáveis por sua saúde. Segundo passo: uma vez que a pessoa esteja motivada para experimentar uma atividade física como forma de promoção de saúde, é preciso explicar-lhe os tipos de exercícios que promoverão o benefício almejado.
Queixa muito comum do indivíduo que envelhece é a restrição para realizar determinadas ações. Subir um degrau, o degrau do ônibus, por exemplo, é um desafio ergonômico tanto do ponto de vista de amplitude de movimentos quanto de força de impulsão. É fácil demonstrar, mesmo no consultório, que para realizar esse ato corriqueiro fazem falta força de contração muscular e amplitude articular. A pessoa que não consegue abotoar um botão nas costas, levantar os braços acima da cabeça, ou andar alguns metros, não tem simplesmente idade mais avançada. O fator idade está agravado pela falta de competência e de treinamento muscular.


Os exercícios físicos promovem benefícios em curto espaço de tempo. Algumas semanas depois de ter começado a praticá-los contra uma resistência de três quilos, por exemplo, o indivíduo percebe que já dobrou a carga. Isso lhe dá a convicção de que vale a pena continuar insistindo.

Drauzio – Na verdade, o músculo continua respondendo com hipertrofia independentemente da idade que a pessoa tenha.

Wilson – Continua respondendo a vida toda. Existem evidências científicas das mais variadas para mostrar que o músculo do idoso, quando submetido a treinamento organizado, responde de forma semelhante ao do jovem. Levando em conta o patamar geralmente mais baixo em que se iniciam os exercícios, tanto do ponto de vista da função medida com o desempenho, quanto do ponto de vista histológico, pode-se dizer que o músculo do mais velho responde da mesma maneira que o do jovem. Isso não quer dizer que o idoso, que treina, ficará jovem outra vez, mas que terá um acréscimo de força e competência muscular exatamente igual ao que o jovem sedentário teria começando e mantendo o treinamento durante o mesmo período. As curvas de ascensão são absolutamente idênticas e, em algumas semanas de treinamento, o idoso poderá adquirir condições musculares ou funcionais muito superiores ao do jovem que não participou do experimento.



fonte: site do Dr. Dráuzio Varela
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sexta-feira, abril 15

A Lucidez da Velhice VI




OP – O senhor tem ainda uma vantagem, na velhice, que é ir se desfazendo das máscaras. O senhor tem se desfeito de máscaras?

Boff – Nunca incorporei muita máscara porque fui muito transparente, verdadeiro e tive que pagar um preço: crítica, maledicência, juízo, punições. Mas é o fruto da liberdade. Nunca senti isso como castigo. Digo: “Fiz tantas que mereci, dentro desse sistema”. Acolho. E tento continuar minha fidelidade de base.

OP – E, ao se olhar no espelho dos 72 anos, quem Leonardo Boff vê?

Boff – (pausa). Vejo uma grande interrogação. Nunca sei quem sou. Só sei na medida em que vou realizando a vida. Aí, eu me dou conta: “Sou um mistério pra mim mesmo”. Não sei todos os demônios e anjos bons que estão dentro de mim. Só sei que preciso controlá-los e viver com fidelidade de base, ética, espiritual. Mas não é fácil. O ser humano é contraditório e esse equilíbrio tem que ser, continuamente, construído. Ele tem a natureza da rosa. Não dá para manter a beleza da rosa sem a sua fugacidade.

OP – Seu espírito e sua coragem já lhe permitem fazê-lo sábio?

Boff – Não me considero sábio, me considero uma pessoa que tem coragem de dizer as coisas como as pensa. E não sinto que estou provocando pessoas, mas as coisas têm que ser ditas porque assim as vejo.

OP – O senhor conclui que é velho, cristão, franciscano, teólogo e homem. Mas não se sente completo ainda. E o senhor também assina como “peregrinus” e “peccator”. O que o senhor ainda busca por onde anda e onde o senhor acha que falhou, nesse percurso de ser humano?

Boff – Estou aberto aos encontros que são fortuitos, não são planejados. Eles obedecem a lógica da física quântica, da incerteza. Mas acredito que há um elo de fundo, que leva a aproximar as pessoas. E, juntas, estabelecer um laço. Procuro incentivar esse lado. Que não seja ressentimento, disputa, concorrência. É a minha predisposição de base. Se alcanço, ou não, são as pessoas que têm que dizer e não eu.

OP – Após os anos de cristianismo, de ser franciscano, de favela, o senhor já compreende Deus?

Boff – Não. Quanto mais mergulho nessa realidade, mais percebo que Deus não é só mistério pra nós, Ele é mistério Nele mesmo. É uma energia última, poderosa, continuamente cria e, para Ele, também é surpresa. Mistério que nunca vai se acabar. E o ser humano também é mistério. Por mais que o defina, não consigo enquadrá-lo. Então, somos uma metáfora de Deus. E fico aberto a descobrir mil faces de Deus nas religiões, nas pessoas. Cada um é uma revelação da divindade, que merece ser ouvida, acolhida.

PERFIL
Leonardo Boff é sua assinatura literária e religiosa. O catarinense de Concórdia nasceu Genezio Darci Boff, em 14 de dezembro de 1938. Tornou-se autor de mais de 60 livros nas áreas de teologia, ecologia, espiritualidade, filosofia, antropologia e mística. Leonardo, do batismo quando frade, foi-lhe escolhido por ser nome de santo. Mas ele havia de ser gauche, na Igreja, ao atuar na Teologia da Libertação. O intelectual vive em Petrópolis e compartilha dias e noites com a educadora Marcia Maria Monteiro de Miranda. Para saber mais: www.leonardoboff.com.br.

Fonte: O Povo / Fortaleza / 2010 ANA MARY C. CAVALCANTE / REPORTER. Colaborou Luiz Henrique Campos.

http://opovo.uol.com.br/app/o-povo/paginas-azuis/2010/08/02/internapaginasazuis,2026243/a-lucidez-da-velhice.shtml


bjs,soninha

terça-feira, abril 5

A Lucidez da Velhice V



OP – A fé é mais acomodação ou inquietação?

Boff – A fé é uma aposta. E aposta é sempre inquieta e nunca está acomodada. Porque a gente não sabe se vai dar certo. A fé aposta que o fim é bom, que a vida vai triunfar, que as coisas não acabam na morte. Acredito que o desígnio e a palavra última não têm a morte, têm a vida. Essa é a grande mensagem das religiões, especialmente, do Cristianismo, que a vida é o grande mistério.

OP – Aos 70 anos, o senhor se declarou, oficialmente, velho. O senhor se deu conta do tempo que passou? O que o senhor celebra, especialmente, aos 70 anos?

Boff – Bom, primeiro, eu achava que ia morrer aos 40. Depois, aos 50 e, para cada época, fiz o balanço da vida. Cheguei aos 70 e disse: “Não faço balanço mais porque errei todos!” (risos). Mas, agora, me dou conta de que é a última fase. Que a vida me dá chance, ainda, para eu crescer, madurar, fazer sínteses. Quero fazer a vida algo criativo. Usar minha experiência e acumulação de saber (passei a vida estudando), que seja útil para a humanidade. Quando me perguntam: “O que você faz na vida?”, “Sou um agitador cultural. Agito”. Não quero trazer consolo a ninguém, quero trazer angústia. A angústia faz pensar, conversar, ler. E o mundo nos obriga essa angústia. Mas é uma angústia criativa, não é uma angústia que um psicólogo cura. É existencial. E a função do intelectual é manter a humanidade aberta, feliz com aquilo que conquistou, mas criativa para conquistar mais para todo mundo. Diria aquilo que Oscar Niemeyer respondeu: “Você gostaria de ser imortal e eterno?”. “Se é pra todo mundo, sim. Se for só pra mim, não”. Essa é a grande mensagem, de universalização do bem e não a privatização.

OP – O senhor já indicou “buscar o impossível para atingir o possível”. Ao longo do seu percurso, o senhor foi mais águia, ou mais galinha?

Boff – Sempre tive desejo de águia. Desde pequeninho, conflitava com as pessoas, não aceitava as coisas como eram e queria sempre crescer. O campo daquilo que não conhecemos é infinito. E aquilo que conhecemos é mínimo. Quero me confrontar com esse desafio do grande, do infinito. E mantenho esse mesmo entusiasmo, apesar da idade.

OP – E que retoques o senhor tem dado na sua estátua? O senhor diz que, na velhice, temos a oportunidade do nascer novamente e vamos dando nossos próprios retoques…

Boff – A gente realiza o arquétipo de base, aquela energia de fundo que quer se manifestar. Ora de forma melhor, ora de forma pior. E posso dizer que ela nunca foi completa em mim. E talvez só se realize na eternidade, com a mão de Deus. Eu modificaria talvez muitas coisas. Seria mais indignado. Houve uma época em que eu era mais monge, voltado pra dentro, não sentia tanto o drama do mundo. E percebi uma certa alienação. O convento tenta realizar o mundo reconciliado, proteger contra as tentações do mundo e da carne. Mas devemos estar dentro da realidade. Não ficar no porto tranquilo, ir para o mar alto. E não suplicar a Deus, “livre-me das ondas”, mas “me dê forças para enfrentar as ondas”. Essa perspectiva, nunca perdi.


Fonte: O Povo / Fortaleza / 2010 ANA MARY C. CAVALCANTE / REPORTER. Colaborou Luiz Henrique Campos.http://opovo.uol.com.br/app/o-povo/paginas-azuis/2010/08/02/internapaginasazuis,2026243/a-lucidez-da-velhice.shtml


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quinta-feira, março 17

A Lucidez da Velhice IV



OP – E essa violência extremada que tem se manifestado nos indivíduos, onde está Deus nessa história?

Boff – Na medida em que o Brasil entra nas relações capitalistas, incentiva. É próprio da lógica do capitalismo a busca individual da felicidade, da casa, do carro. Petrópolis, onde vivo, cidade imperial, bonita, tem 102 favelas, escondidas atrás de cada morro. Esses são vítimas da televisão, da propaganda. Fazem o crime para roubar a Nike do outro. Entram na droga pra ganhar dinheiro e realizar os desejos que foram suscitados pelo marketing da nossa cultura. E há sempre uma violência que é inerente ao ser humano – se ele não se autocontrola. 

Às vezes, tem uma dimensão de vingança. Isso é o lado decadente do ser humano. Não temos uma equação perfeita que define o ser humano. Ele está em construção, buscando o equilíbrio. Pode ser o satã da Terra, que destrói nosso planeta, como pode ser o anjo bom, que cuida. Ele vive essa contradição. Quando a gente vê essa violência, tem que entender quem é o ser humano. Porque temos ódios dentro de nós. Temos violências. Mas a educação, a ética, a espiritualidade nos pede e conseguimos moderar. É um processo da civilização. Esses que não puderam ter acesso a essa civilização são mais expostos ao lado instintivo do ser humano.

OP – E a política pode dar de comer a quem tem essa fome de felicidade? Eleições se aproximam e se renovam promessas e esperanças…

Boff – A política é a busca comum do bem comum. Isso é o seu sentido ético. Agora, a política que existe é a busca do poder. E as promessas, 99% são enganosas. Fundamentalmente, a nossa política é conceder ao povo o direito de, a cada quatro anos, eleger o seu ditador. Uma vez eleito, ele faz o que quer. Não dialoga com as bases, os movimentos sociais. É a política no seu lado patológico. E isso temos que, pela cidadania, curar. Saber escolher os candidatos, submetê-los à crítica, ver que conexão têm com o povo, quais seus projetos reais.

OP – Qual outro passo importante para o País se distanciar ainda mais desse passado?

Boff – O Brasil tem que despertar da sua importância mundial para o equilíbrio do sistema Terra, que entrou em processo de caos devido ao aquecimento. Muitos já falam que o Brasil é a primeira potência grande dos trópicos, o G-0. Os outros são grandes porque têm dinheiro, indústria de ponta, armas nucleares: o G-2, o G-8, o G-20. Somos a potência ecológica. O Brasil pode ser a Roma dos trópicos, o velho sonho de Darcy Ribeiro. Uma Roma do direito, da dignidade, da cordialidade. Temos as bases ecológicas, geográficas para essa posição ímpar no mundo. E temos uma população que vem de 60 povos que aqui se amalgamaram, não criaram fundamentalismos, discriminações, mas fizeram uma síntese que poderá ser uma antecipação daquilo que vai ser a humanidade amanhã.

OP – Aos 72 anos, o senhor mantém sua fé – na vida, no homem, no que virá – inabalável?

Boff – Enquanto vivemos, agradecemos a vida. Porque a vida é a floração maior que o universo produziu, o dom maior que Deus nos entregou. Amo a vida, mas me dou conta de que estou no entardecer, descendo a montanha da vida. Mas que ela continuará. Então, quero sair do mundo abençoando a vida, e não a maldizendo. E me reconciliando com todas as coisas e agradecendo por ter passado.

Fonte: O Povo / Fortaleza / 2010 ANA MARY C. CAVALCANTE / REPORTER. Colaborou Luiz Henrique Campos.

http://opovo.uol.com.br/app/o-povo/paginas-azuis/2010/08/
/internapaginasazuis,2026243/a-lucidez-da-velhice.shtml


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sábado, março 5

A Lucidez da Velhice III



OP – Ter consciência do mundo, se tornar adulto, conhecer o amor e a dor de cada dia vai nos tornando mais utópicos, ou mais realistas?

Boff – As duas coisas. Porque a utopia é uma energia que está dentro de nós, quando a gente fala do princípio de esperança. O princípio de esperança é aquela energia que nos faz enfrentar dificuldades, projetar sonhos, ter visões melhores do mundo. Mas sabemos que a utopia nunca será realizada. A utopia é como as estrelas: elas estão lá em cima, enchem de sentido a noite, orientam os navegantes, mas nunca alcançamos as estrelas. Mas, se não tivéssemos as estrelas, o que seriam de nossas noites? Porque amamos as estrelas, não tememos a noite. A noite é o mundo real. A gente vive tentando traduzir a utopia em processos de viabilidade de relações de trabalho, matrimônio. Tudo é uma aposta. Se der certo, somos felizes. Se fracassar, temos a capacidade de sintetizar isso de uma forma que nos faz mais maduros. As duas coisas convivem: o real está aberto ao utópico, e o utópico pede realização. Nunca conseguimos realizar totalmente. Por isso estamos sempre a caminho.

OP – Em matérias pelos sertões do País e pelas carências das pessoas, nos surpreende sempre a reinvenção do existir, a celebração da vida – mesmo que seja uma vida severina. Como o senhor explicaria a felicidade do pobre?

Boff – A felicidade do pobre está naquelas pequenas coisas que nós, mais instruídos, vivendo na cidade, os benefícios da cultura, muitas vezes, perdemos. O pobre é feliz pela solidariedade que existe entre eles. Uma mulher morre, deixa cinco filhos, eles disputam para adotá-los. As festas deles – e eu trabalho em favela há mais de 20 anos – são de total singeleza. É pipoca e Coca-Cola. É conversa, dança, contar casos, com o mínimo de coisas materiais. Um tempo atrás, recebi a visita de um jornalista alemão que cobriu áreas do mundo inteiro. Eu o levei para uma festa popular. Comiam um churrasquinho, tomavam Coca-Cola, dançavam, e ele começou a chorar: “Tô pedindo a Deus que quero morrer num lugar assim, onde os seres humanos se reconciliam”. Todos pobres e lascados, mas felizes. (A felicidade do pobre vem das relações).

OP – O senhor consideraria o povo brasileiro feliz?

Boff – Considero o povo brasileiro um dos mais felizes do mundo. Porque ele tem uma visão encantada do mundo: se sente acompanhado por Deus, pelos santos fortes, pelos orixás… E tem uma visão lúdica do mundo. Sabe cultivar seu Carnaval, dançar suas festas, torcer por seu time. E é um povo de esperança, sempre acredita que amanhã vai ser melhor. Essas dimensões vão ter um significado no processo mundial da emergência de uma nova sociedade. Não pode ser prolongamento desta: materialista, fria. Tem que incorporar a razão cordial, a relação de amizade, o sentido da cooperação e da solidariedade. São fatores que produzem a felicidade. O povo brasileiro tem um superávit enorme nisso. E a convivência com Deus. Sabem que Deus está junto. “Fica com Deus, vai com Deus, graças a Deus”. Isso pertence à nossa identidade. O povo brasileiro não acredita em Deus. Ele sabe que Deus existe: sente, na pele, Deus. Deus pertence à vida, é o galho último no qual me agarro. Por isso, não vamos para a violência absurda, nunca fizemos grandes revoluções. O que nos leva a saber sempre negociar ou conciliar.

Fonte: O Povo / Fortaleza / 2010 ANA MARY C. CAVALCANTE / REPORTER. Colaborou Luiz Henrique Campos.

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quinta-feira, fevereiro 24

A Lucidez da Velhice II



OP – Seguir uma religião traz felicidade?

Boff – Traz felicidade e pode trazer desgraça. A natureza da religião é trazer reconciliação, apoiar o amor, fazer com que as pessoas se abram à totalidade, a Deus. Quando a religião adoece – e a doença da religião é a arrogância de dizer “somos a única igreja verdadeira” -, as pessoas se tornam inimigas. Grande parte das religiões, inclusive, a Igreja Católica, tem essa doença. E temos que libertar a religião. A religião é um fio condutor que tudo amarra e que transforma esse cosmo em uma grande unidade que chamamos Deus – ou mil nomes que damos, Tao, Shiva, não importa. A espiritualidade tem a ver com isso, e a religião devia manter acesa essa chama interior. O grande projeto das religiões, especialmente, de Jesus era tratar humanamente os seres humanos. E eu os trato humanamente quando os amo, os respeito, os acolho. O efeito disso é o bem-estar, a alegria de viver junto com os outros.

OP – No mundo atual, com os prazeres mais explícitos (ou com mais prazeres permitidos) e com os conflitos mais complexos, onde está a felicidade? Se tornou mais difícil, ou mais fácil encontrá-la?

Boff – Essa situação coloca um desafio a cada pessoa. A felicidade se encontra na justa medida entre a luz e a sombra, entre o instinto de rejeição e o de congregação. O ser humano tem que exercer a sua liberdade no sentido de saber os limites da realidade, aquilo que prejudica, ou que integra. Isso é uma conquista difícil. É o preço que cada pessoa tem que pagar para poder ser feliz. E a sociedade não ajuda a buscar essa justa medida porque exaspera o desejo, solicita o consumo material. É o discurso mostrando a criminalidade, exaltando pelas mil formas a violência dos seres humanos. É uma cultura doente. É difícil encontrarmos o equilíbrio e realizarmos o projeto de felicidade.

OP – E se chega, em algum momento da vida à felicidade? Essa busca tem um fim?

Boff – Nunca tem fim porque o ser humano é um projeto infinito. É a famosa experiência de Santo Agostinho, o grande procurador: “Eu te procurava dentro, e tu estavas fora. Te procurava fora, tu estavas dentro. Finalmente, te encontrei, ó beleza tão antiga e tão nova! E aí descansou meu coração”. Essa experiência do ser humano é de idas e vindas, fracassos e sucessos, usar a resiliência. Resiliência significa poder dar a volta por cima, aprender do fracasso, não deixar que as coisas sombrias tenham a última palavra, amadurecer com elas. A felicidade supõe um amadurecimento das experiências humanas. Vem de uma construção difícil, lenta. E junto vem a serenidade, a capacidade de uma relação que aceita as diferenças. Convivo com jovialidade e não com amargura. A felicidade é fruto desse processo. A idade conta muito.

Fonte: O Povo / Fortaleza / 2010 ANA MARY C. CAVALCANTE / REPORTER. Colaborou Luiz Henrique Campos.

http://opovo.uol.com.br/app/o-povo/paginas-azuis/2010/08/02/internapaginasazuis,2026243/a-lucidez-da-velhice.shtml

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segunda-feira, fevereiro 14

A Lucidez da Velhice I



O POVO – É possível conciliar as duas dimensões de felicidade: a individual – o que seria, particularmente, importante – e a coletiva?

Leonardo Boff – Creio que a felicidade resulta de relações que faço boas para comigo mesmo e boas para com os outros, a natureza, o todo. E para com Deus, a realidade mais suprema. Então, a felicidade não pode ser alcançada diretamente, é fruto de coisas que acontecem antes. E o ser humano é um nó de relações. Como diz Carlos Drummond: “Estou diluído dentro da natureza, floresço com os ipês”. Essa percepção dá um sentido mais profundo à felicidade. É impossível alguém ser feliz sabendo que seus irmãos estão morrendo de fome e sede, outros estão sendo vítimas dos vendavais que destroem. Mesmo assim, pode criar um núcleo profundo de serenidade e de paz quando integra o negativo pessoal e o negativo das coisas e faz uma síntese cujo efeito é uma felicidade possível aos humanos, em um mundo que, em grande parte, é inumano.

OP – Existe relação entre felicidade, espiritualidade e autoajuda?

Boff – A autoajuda é uma grande indústria que trabalha com falsas promessas e tem como pressuposto a vulnerabilidade e a fragilidade humana. Todo ser humano quer ser feliz. E a autoajuda oferece uma fórmula rápida e fácil. Isso é alienação. A felicidade vem de dentro e é uma conquista que o ser humano realiza partindo da condição humana. Somos seres que têm a dimensão de luz e de sombra. Somos diabólicos, que dividem, odeiam e somos seres simbólicos, que unem, amam, são solidários. Essa é a condição humana. Não é um defeito, é a nossa marca. A felicidade vem do equilíbrio dessas duas dimensões, na medida em que faço uma opção pela dimensão luminosa e não deixo que a dimensão tenebrosa tenha a hegemonia da minha vida. Se parto dessa condição humana, diminuo as expectativas, a felicidade é mais alcançável, mais serena. Não significa que não tenhamos momentos especiais de felicidade. É a dimensão vertical. Um encontro com a pessoa amada, o irmão que estava no exílio volta… Aquele momento é supremo. Agora, tem aquele momento de estar, serenamente, feliz, que é o cotidiano da vida. O fenômeno do casamento é uma bela figura. Quando a pessoa se enamora, sente uma enorme felicidade. Mas é fugaz. Casa, vem o dia a dia, se descobrem nos seus limites, um tem que tolerar o outro. Ele está feliz na medida em que consegue fazer uma síntese e conviver, apesar e com as diferenças. “Hoje vamos jantar fora”… Romper aquele cotidiano que ameaça a felicidade. E ser criativo para manter aquele momento que é um pequeno êxtase, um pequeno encantamento. A felicidade vive dessas dimensões. E isso é sabedoria da vida, coisa que o mercado não dá. É uma conquista do coração.

OP – Mais próximo à espiritualidade…

Boff – A espiritualidade tem que ser bem entendida. Não é sinônimo de religião. É uma dimensão do profundo humano, onde o ser humano coloca as questões de base: o que eu faço nesse mundo, de onde venho, para onde vou, o que posso esperar depois dessa vida? A felicidade implica que a gente não exclua do nosso horizonte a doença e a morte. A morte nessa compreensão de que é o momento mágico, alquímico de transfiguração. Somos chamados não para terminar, mas para nos modificar na morte, para que a vida dê um salto. A morte é uma invenção da vida para ela poder passar para um outro nível e continuar vida. A felicidade implica ter essa serenidade de encarar a morte como pertencendo à vida. A vida é mortal. Vamos morrendo, em prestação. Simultaneamente, vamos nascendo, lentamente, para horizontes mais vastos, até o grande horizonte. As duas coisas coexistem. O ser humano, quando interioriza essas questões, descobre a sua dimensão espiritual. E isso temos que resgatar, contra a mercantilização de todas as coisas. A amizade, o amor, o perdão não têm preço, têm imenso valor. A espiritualidade vive desses valores. E que dão sentido à existência humana. Para além da própria vida e da morte.


Fonte: O Povo / Fortaleza / 2010 ANA MARY C. CAVALCANTE / REPORTER. Colaborou Luiz Henrique Campos.

http://opovo.uol.com.br/app/o-povo/paginas-azuis/2010/08/02/internapaginasazuis,2026243/a-lucidez-da-velhice.shtml


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quinta-feira, janeiro 20

Empregabilidade acima dos 40 anos


Daniel Limas entrevista Maria Bernadete Pupo

Maria Bernadete Pupo é especialista em um assunto bastante polêmico e que gera muitas dúvidas nos profissionais: a empregabilidade após os 40 anos. Tema que gerou o livro “Empregabilidade acima dos 40 anos”, da editora Expressão e Arte.

Profissional com mais de 20 anos de experiência na área de Recursos Humanos, ela decidiu se especializar neste tema após ser procurada constantemente por profissionais mais experientes que viviam se queixando da dificuldade em recolocar-se no mercado.

Hoje, Maria Bernadete Pupo atua na coordenação do Departamento de Recursos Humanos do Centro Universitário FIEO e presta consultoria de RH. A profissional é formada em Administração de Empresas com ênfase em Recursos Humanos pela Universidade Anhembi Morumbi, é pós-graduada em Direito do trabalho e Mestra.



De onde surgiu a ideia de escrever o livro Empregabilidade acima dos 40 anos?

Como consultora de RH, constantemente era procurada por profissionais mais experientes queixando-se da dificuldade em recolocar-se no mercado de trabalho e de como deveriam agir para se tornarem mais competitivos. Esta inquietação me motivou a desenvolver minha pesquisa de mestrado focando este tema. O resultado foi tão interessante que se transformou num livro.



Há uma tendência de empresas voltarem a contratar profissionais mais experientes, acima de 40 anos? Por quê?

Sim. O preconceito da idade começa a ceder espaço aos “quarentões”, que até muito pouco tempo estavam relegados à espera do sistema previdenciário. Hoje, a tendência do empresariado é a de unir o potencial do jovem com a “experiência dos mais experientes”. O diferencial está exatamente em contratar profissionais ativos, atualizados e que tenham acesso às informações gerais e específicas de sua área de atuação. Trata-se de buscar competências agregadas pela via do conhecimento específico e pela multifuncionalidade que tornam o profissional apto a uma recolocação no mercado de trabalho.



O que motivou as empresas a fazerem isso? Foi apenas uma questão de custo?

Num sistema capitalista como o nosso, não podemos desconsiderar a questão do custo, porém as organizações forçadas pela concorrência e pela busca constante da competitividade estão aos poucos readequando suas necessidades. Percebe-se que quando a empresa precisa de talentos com potencial é por meio de programas de trainees que ela procura jovens. Mas, se o cargo requer disseminação de valores e competência, ela contrata pessoas mais experientes.



Essa tendência vem do exterior?

Essa é uma tendência do mundo capitalista. Queiram ou não, as organizações podem se beneficiar da sabedoria dos mais experientes que geralmente são mais diretos e assertivos e que normalmente retornam ao mercado de trabalho com um custo mais reduzido.

Fonte: CARREIRA & SUCESSO – 375ª. EDIÇÃO

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Paz!